Psicose 2 é um filme que carrega nas costas o peso de ser a continuação de um clássico que estabeleceu as bases para muito do que viria a ser o cinema de terror moderno. O próprio subgênero slasher deve muito a Psicose, que, com seu minimalismo e experimentação característicos de Alfred Hitchcock, já apontava para novos rumos da linguagem cinematográfica. Seu esquema de produção enxuto também antecipava transformações que se consolidariam com as nouvelles vagues e com a quebra de padrões formais e temáticos do cinema clássico. Nesse sentido, Psicose 2 se apresenta como um interessante exemplo de como esse legado do primeiro filme reverbera no cinema posterior.
Reconhecendo essa herança, o filme se inicia com a icônica cena do chuveiro, mas rapidamente se diferencia por diversos elementos. A trilha sonora de Jerry Goldsmith é um dos grandes destaques, ao emular a tensão típica do gênero enquanto adiciona um tom melancólico à trajetória de Norman Bates. Aqui, o personagem surge como um sujeito atormentado, em busca de uma vida normal, mas constantemente manipulado por figuras femininas fortes. Nesse contexto, Anthony Perkins entrega uma atuação marcada por carisma e ambiguidade, sustentando o filme ao lado de Meg Tilly, que interpreta Mary. Juntos, constroem uma relação envolvente, que se destaca dentro do universo do suspense e do terror, ancorada em um roteiro que aposta em inversões de expectativa, diálogos ambíguos e reviravoltas eficazes. O resultado é um drama que se mantém palpável sem abrir mão da tensão.
A direção de Richard Franklin não se limita a reproduzir a criatividade de Hitchcock, buscando também alcançar um nível próprio de elegância formal. Para quem assistiu a Os Fabelmans, autobiografia do diretor Steven Spielberg, é difícil não lembrar da célebre aula de ângulo de câmera atribuída a John Ford, interpretado por David Lynch: “quando a linha do horizonte está acima ou abaixo, é interessante; quando está no meio, é chato”. Em Psicose 2, os enquadramentos revelam um apuro técnico notável. O filme explora plongées e contra-plongées que deslocam a linha do horizonte, além de planos zenitais e ângulos holandeses expressivos. Destaca-se também o uso do split diopter, especialmente em uma cena que subverte a própria lógica da técnica: o fundo, embora em foco, é deliberadamente obscurecido para ocultar a identidade do assassino. A montagem acompanha esse rigor, com destaque para a sequência final envolvendo a queda de um personagem na escada, construída com precisão e impacto.
Ao mesmo tempo em que evidencia o legado do filme original, Psicose 2 absorve as transformações ocorridas nas mais de duas décadas que o separam de seu predecessor. O uso das cores, um certo grafismo típico do slasher e uma exuberância formal que dialoga com o maneirismo oitentista — especialmente perceptível na obra de Brian De Palma — apontam para um cinema mais estilizado. Ainda assim, sua principal força reside na relação entre Norman Bates e Mary, que sustenta o interesse do espectador até o desfecho.
Direção: Richard Franklin
Roteiro: Tom Holland
Montagem: Andrew London
Trilha sonora: Jerry Goldsmith
Elenco: Anthony Perkins, Vera Miles, Meg Tilly, Robert Loggia , Dennis Franz, Hugh Gillin, Claudia Bryar, Robert Alan Browne, Ben Hartigan, Lee Garlington, Tim Maier, Jill Carroll, Chris Hendrie, Tom Holland, Michael Lomazow









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