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segunda-feira, 10 de julho de 2017 às 12:35 Postado por Gustavo Jacondino 0 Comments



É uma tarefa quase impossível falar de “Mulher - Maravilha” sem pensar em questões de representatividade da mulher no cinema mainstream. Isso porque filmes protagonizados por mulheres e que fazem parte do universo dos super-heróis, como “Mulher Gato” ou “Elektra”, foram erros estrondosos, além de não terem sido dirigidos por mulheres. Mas apesar do discurso político e social que é perfeitamente possível se associar ao filme, “Mulher - Maravilha” é um filme leve, bem humorado e, tal qual sua personagem nesse momento de sua vida, inocente.


Num primeiro ato envolvente, a diretora Patty Jenkins (de "Monster – Desejo Assassino") estabelece a ilha das amazonas como um lugar banhado em luz e cores, fazendo um ótimo contraste à ambientação cinza e desbotada dos filmes anteriores da DC. A animação empregada para contar a história mitológica das amazonas é espetacular, concebida numa espécie de pintura em movimento belíssima. Da adorável jovem Diana interpretada por Lilly Aspell só podemos reclamar do pouco tempo em tela, dado ao carisma da atriz. Carisma esse que será a principal arma de Gal Gadot para carregar o filme, e apesar de não ser uma atriz experiente e ter limitações em sua expressividade, compensa ao passar segurança e conseguir encarnar a inocência, idealismo e determinação da personagem. Chris Pine como Steve Trevor consegue estabelecer o personagem com certo charme de um espião de guerra, mas ao mesmo tempo com ar de solidão e amargura.

A interação entre Steve e Diana rende ótimas situações engraçadas pela maneira como cada um enxerga a sociedade e os costumes, com destaque para a cena do barco quando os personagens estão indo para a cinzenta Londres e na cena da loja de roupas. Não deixa de ser uma bela crítica à sociedade os comentários que envolvem a pouca funcionalidade das roupas femininas, a personagem achar que o espartilho é uma armadura ou considerar o homem unicamente útil para a procriação, principalmente quando estamos ambientados no início da revolução industrial, dos movimentos sufragistas e início das lutas das mulheres pelos seus diretos, contando com um diálogo extremamente interessante entre Diana e Steve sobre as atitudes tomadas durante a guerra e a desconstrução de um lado bom e ruim, o que faz com que o filme não caia num maniqueísmo tão comum nessas produções. Porém é na guerra que o filme toma forma, quando seus personagens participam do conflito e Diana tem bem definido o momento em que passa a tomar a iniciativa no longa, algo que Patty Jenkins é muito feliz em filmar estabelecendo a iconografia da personagem em sua primeira aparição, contando com sequências de ação bem dirigidas e reforçadas pelo bom uso da câmera lenta e com uma trilha sonora eficiente que já conta com uma ótima música tema para a personagem. Aqui é importante destacar a cooperação entre os personagens, compostos por Steve, Sammer (Saïd Taghmaoui), Charlie (Ewen Bremner) e o Chefe (Eugene Brave Rock), nunca diminuídos pelos poderes da heroína, mas conscientes do papel que cada um pode ter na empreitada contando com uma complexidade muito forte, não sendo meras caricaturas. O ator frustrado que, em suas próprias palavras, ‘não tinha a cor certa’, o soldado atormentado pela guerra e o descendente de índios que não esquece quem matara seu povo constituem, junto com Diana e Steve, um grupo coeso e que facilmente ganha a nossa admiração.

A dupla de vilões constituída por Danny Huston como Luddendorff como o estereótipo da vilania e crueldade e a Doutora Maru/Veneno de Elena Anaya, que carrega um ar de mistério mais do que de complexidade, perde por não ter mais tempo em tela para que possamos ter mais contato com suas motivações.

 Patty Jenkins dirigindo "Mulher - Maravilha"

À medida que avança o longa vai restabelecendo a atmosfera escura normalmente empregada pelos longas dirigidos por Zack Snyder para a DC, algo que visualmente é pouco interessante para filmes de super-heróis, mas que aqui se justifica pelo contexto histórico em que a trama se passa. Porém é no seu final que o filme desanda. Contando com um plot twist extremamente desnecessário e que reforça a falta de desenvolvimento do vilão principal, caricato e banhado em um CGI excessivo que lembra o Apocalypse de “Batman VS Superman”. A resolução e as descobertas do final, em mais um clichê do vilão que explica o seu plano para o público, são todas previsíveis e não justificam o ar épico empregado na narrativa. Porém esse é um erro recorrente dos filmes do universo DC, algo que precisa ser consertado nos próximos longas para que não se torne um vício que permeará todos os filmes desse universo.


Assim, apesar dos deslizes no final, “Mulher - Maravilha” tem um saldo muito positivo, não só por questões de representatividade da mulher no cinema, mas acima de tudo por ser um ótimo filme de super-herói da DC, de uma heroína que nunca fora representada em tela grande e que qualquer um pode se identificar, independente de gênero.



Direção: Patty Jenkins

Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, David Thewlis, Saïd Taghmaoui, Ewen Bremner, Eugene Brave Rock, Elena Anaya, Lilly Aspell

Música: Rupert Gregson-Williams

Roteiro: Allan Heinberg

Fotografia: Metthew Jensen

Montagem: Ian Differ, Martin Walsh

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