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terça-feira, 11 de julho de 2017 às 10:24 Postado por Gustavo Jacondino 0 Comments


Desde “Homem Aranha 2” de Sam Raimi, filme que seguramente é um dos melhores exemplares de filmes de super-heróis, que o personagem perdera o seu caminho no cinema. “Homem Aranha 3” repete a mesma fórmula empregada nos longas anteriores de criar problemas pessoais para Peter pondo em xeque os seus ideais como Homem Aranha e recorre ao clichê da donzela (Mary Jane) em perigo, desta vez com uma quantidade absurda de vilões e com um Venon deslocado que nunca parece pertencer de fato ao filme. A reimaginação do personagem funciona em alguns momentos tendo seu melhor desempenho em “O Espetacular Homem Aranha 2 – A Ameaça de Electro”, mas não justifica o reboot nunca e conta com um Andrew Garfield que nunca consegue encarnar um Peter Parker que remeta à essência do personagem presente nos quadrinhos ou nas séries animadas. Porém esse não é o problema de “Homem Aranha – De Volta ao Lar”, que parte do personagem já apresentado em “Capitão América: Guerra Civil” e insere o Peter Parker de Tom Holland nesse universo cinematográfico da Marvel de maneira orgânica e crível, acertando em não levar para as telas a já conhecida origem do personagem, procurando construir as nuances de sua personalidade em outras circunstâncias e contextos.


Tendo início estabelecendo um dos melhores vilões do universo da Marvel até aqui, o Adrian Toomes de Michael Keaton conta com uma motivação e desenvolvimento muito bem resolvido, nunca soa maniqueísta, alternando momentos em que transparece ser um trabalhador comum que só quer sobreviver com aqueles em que demostra um leve ar de crueldade e ameaça quando demonstra não se importar com aqueles que dificultam os seus objetivos. Porém o mais incrível é que, mesmo com toda a sua competência, Keaton não rouba a cena e não se torna mais interessante que Tom Holland, que está muito a vontade como Peter Parker e interage à altura com Robert Downey Jr. interpretando Tony Stark pela enésima vez, aqui desempenhado uma função de mentor para Peter, e com Jon Favreau como Happy Hogan, que usa seus talentos de comediante nas cenas em que interage com Peter, além de desempenhar uma função importante no decorrer da trama. O tom que o diretor Jon Watts estabelece para o filme abraça o lado cômico e leve que o personagem sempre carregou nos quadrinhos e nas animações, contando com momentos engraçadíssimos que vão desde o traje altamente tecnológico do personagem, passando pela jovem tia May interpretada por Marisa Tomei até a inexperiência de Peter em ser um herói. Nesse sentido, “De Volta ao Lar” seguramente é um dos filmes mais engraçados da Marvel. O ambiente escolar em que Peter está inserido é crível e envolvente, com ótimos personagens coadjuvantes. É interessante perceber um Flash Tompson interpretado por Tony Revolori que não mais segue o estereótipo de garoto forte e valentão, mas que aqui é um garoto inteligente, um Ned vivido por Jacob Batalon como um grande amigo de Peter e alguém que de fato ajuda o personagem em diversos momentos chave. A Michelle de Zendaya rouba as cena em vários ótimos diálogos e timing cômico. A Liz de Laura Harrier, que se estabelece como um interesse amoroso de Peter tem carisma e beleza, desenvolvendo uma relacionamento que contribui para o arco dramático do personagem ao longo do filme. Também é interessante perceber como o grupo da escola de Peter representa um grupo étnico variado, algo que certamente condiz com a realidade de uma cidade como Nova York e que sempre é bom de se ver representado na tela ao mesmo tempo que o filme não chama a atenção para isso.


A fotografia do longa investe no uso de cores vivas, algo que faz parte do padrão dos filmes da Marvel, é muito acertada, porém o uso de CGI não deixa de ser exagerado em alguns momentos em que o personagem se movimenta no ar. A música de Michael Giacchino peca por não trazer um tema marcante para o personagem, sendo mais uma daquelas trilhas que comentam o que está na tela mas que não sobrevivem fora do filme, algo que para um filme de super-herói nunca é bom. Basta perceber como o filme consegue evocar a presença dos Vingadores quando toca alguns acordes da trilha marcante de Alan Silvestri, ou mesmo quando vemos a logo dos Studios Marvel ao som da trilha da clássica série de TV do personagem em um novo arranjo, algo que poderia ser melhor trabalhado por Giacchino durante o filme.

As sequências de ação novamente caem no vício do excesso de cortes, tornando-se frenéticas em alguns momentos, sem que isso diminua a percepção da sequência como um todo, mas diminuindo o potencial cinematográfico que uma sequência de ação bem dirigida pode ter, como a excepcional sequência do trem de “Homem Aranha 2”, que contou com toda a experiência e sensibilidade de Sam Raimi. Em “De Volta ao Lar”, Jon Watts ainda é um diretor iniciante em longas metragens de grande orçamento, e isso é perceptível principalmente nas sequências de ação.


À medida que o filme avança, aos poucos temos a formação moral do herói que conhecíamos de longa data, seja nos quadrinhos, nas séries animadas ou no cinema, sem precisar contar a mesma história de origem já conhecida e recontada várias vezes, sem nem mesmo falar em poderes e responsabilidades, mas com a coragem de reimaginar o personagem sem perder de vista em nenhum momento a sua essência, algo que só a Marvel, criadora do personagem, poderia fazer tão bem e com tamanha segurança.



Direção: Jon Watts

Elenco: Tom Holland, Michael Keaton, Laura Harrier, Marisa Tomei, Jon Favreau, Zendaya, Jacob Batalon, Donald Glover, Robert Downey Jr.

Roteiro: Erik Sommers, Chris McKenna, Jon Watts, Jonathan Goldstein, John Francis Daley, Christopher Ford

Fotografia: Salvatore Totino

Música: Michael Giacchino

Montagem: Dan Lebental, Debbie Berman

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