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quinta-feira, 27 de outubro de 2016 às 09:26 Postado por Gustavo Jacondino 0 Comments



Dono de uma filmografia memorável e que constantemente buscou refletir sobre a natureza humana e
cristalizar os comportamentos e sensações da humanidade, Terrence Malick sempre intencionou fazer as perguntas certas sem se preocupar em encontrar respostas.

Em seus filmes se dedicou a filmar a existência de maneira contemplativa e envolvente, fazendo um contraste sempre interessante com a narrativa mais clássica e objetiva, que é presente em seus primeiros filmes também. Se o cineasta alterna em tom filmes como "Terra de Ninguém", "Além da Linha Vermelha", e "O Novo Mundo", que por se tratarem de gêneros estabelecidos já possuem uma linguagem típica própria, Malick exerce um revisionismo da linguagem ao estabelecer sequências filmadas em ângulos inusitados e ousados, que contam com narrações em off de seus personagens, conferindo um clima contemplativo e sacro que reforça todas as metáforas que são caras ao diretor. Sua Obra-Prima, "A Árvore da Vida", é ousada exatamente por se estabelecer como um filme que emprega esses recursos durante todo o tempo (algo que ensaiara com mais força no memorável "Cinzas do Paraíso") sem se render a uma narrativa objetiva ou clássica em nenhum momento, mas inserindo metáforas, sugestões e sequências que parecem ter sido arrancadas diretamente do subconsciente de seus personagens, dando ao filme uma constante sensação de lembrança, que é algo convidativo ao espectador, para que este também rememore e reviva momentos de seu passado, ao passo que o diretor põe tudo isso em uma perspectiva existencial evocando o nascimento do Universo, da vida e da própria espécie. Em "Amor Pleno" a narrativa se mantém, mas o escopo é reduzido, gerando uma reflexão interessante sobre amor e existência, mesmo que menos intenso que nos longas anteriores. Pois em "O Cavaleiro de Copas" podemos perceber o risco que se corria nos longas anteriores em construir uma longa que tem ares pretensiosos sem cumprir  a promessa de entregar algo que realmente toque o espectador.

Se nos filmes anteriores isso não passava de um risco e os filmes realmente se mostravam tão grandiosos quanto se pretendiam, em "O Cavaleiro de Copas" encontramos alguns fortes problemas. Além de contar com um personagem que dificilmente tem um conflito que envolva o espectador e que encontra poucas oportunidade de estabelecer uma personalidade interessante, temos poucos indícios do que Malick intencionara nesta produção. Pode-se ter tentado retratar o vazio e os conflitos de uma vida de aparências e regada a festas e frivolidades em Los Angeles, mas isso se estabelece com mais força no personagem de Antonio Bandeiras, num breve momento. Ao refletir sobre as mulheres que passaram por sua vida, o personagem interpretado por Christan Bale não estabelece um conflito que desperte a empatia no espectador e o filme peca em retratar as mulheres de maneira superficial. Nem mesmo a alegoria do baralho de cartas se faz tão clara ou mesmo coesa. Filmes como "A Doce Vida" de Felini ou  mesmo "A Grande Beleza" de Paolo Sorrentino conseguem passar certa graça e o envolvimento, ao mesmo tempo que refletem sobre existência e frivolidades. O desempenho do eficiente elenco termina por não conseguir deixar personagem algum em destaque ou ter alguma presença marcante.

Acaba que "O Cavaleiro de Copas" produz algumas sequências visualmente bonitas por contar com o sempre inspirado Emanuel Lubezki na fotografia, mas que no conjunto da obra não encontra uma voz no meio de uma filmografia que costuma comunicar muito a cada filme.




Direção: Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Christian Bale, Cate Blanchett, Natalie Portman, Brian Dennehy, Antonio Banderas, Freida Pinto, Wes Bentley, Isabel Lucas, Teresa Palmer, Imogen Poots    
Fotografia: Emanuel Lubezki
Música: Hanan Townshend

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