• RSS
  • Delicious
  • Digg
  • Facebook
  • Twitter
sexta-feira, 14 de setembro de 2012 às 16:31 Postado por Gustavo Jacondino 0 Comments

Imagem

Nos primeiros minutos desse incrível filme de Jonathan Demme somos literalmente apresentados à Filadélfia ao som da bela canção de Bruce Springsteen, uma vez que a câmera passeia pela cidade roubando momentos da vida comum dos cidadãos no melhor estilo documental possível.
Vemos pessoas reunidas abanando e sorrindo para a câmera, em uma série de momentos preciosos de sua rotina diária. E é nesse contexto que somos introduzidos na história de Andrew Backett (Tom Hanks), um talentoso advogado que descobrimos ser um homossexual que contraíra o vírus da AIDS e que contrata um famoso advogado (Joe Miller-Denzel Washington) para processar a firma para a qual trabalhava por julgar ter sido demitido pela sua doença, e não por incompetência, como alegaram na ocasião.

O filme estende o seu escopo para a intolerância, preconceito e o modo de ver homossexuais. Nessa óptica é interessante notarmos como Backett é tratado pelas pessoas ao seu redor, desde o momento em que é um advogado promissor e com futuro brilhante, até o momento em que surgem manchas em sua pele, fator indicativo da doença, e sua posterior deterioração física. O comportamento das pessoas ao seu redor vai da admiração, confiança e simpatia para a desconfiança, estranheza, medo, nojo provenientes de pensamentos sodomitas dos quais os homossexuais eram/são vítimas, confirmando que a AIDS, antes mesmo de representar uma deterioração do corpo, representa a morte da vida social do portador do vírus, tendo o peso do preconceito nas costas, independente da maneira que contraiu o vírus, o que por sinal não é da conta de ninguém. Claro que o medo por vezes se justifica na própria falta de informações sobre a doença e a insegurança com a possibilidade de contraí-la. Nesse quesito reconheço a eficácia da política de conscientização sobre a AIDS e as DST em geral, como maneira de não só socializar os seus portadores como também para evitar que outros menos informados contraiam a doença. É fácil, principalmente hoje, julgar o comportamento daquelas pessoas como preconceituoso, mas numa época em que poucas informações havia sobre AIDS, não é difícil imaginar aqueles atos de medo e preconceito como nossos próprios atos se lá estivéssemos inseridos. É nesse ponto que a montagem inicial que beira o documental nos sugere a identidade que podemos construir com aquelas pessoas comuns que no geral viam com olhos estranhos a AIDS, permitindo pensar até onde nossas atitudes no dia-a-dia são preconceituosas e como esse preconceito afeta os outros.

Naturalmente Joe Miller surge como um excelente advogado que usa em seu favor o poder da imprensa e que apresenta em sua personalidade traços homofóbicos. Será o bigode usado por Washington um elemento de composição que visa ressaltar a masculinidade do personagem, mesmo soando meio Village People hoje (e na época também, imagino)? Mas o importante é que o preconceito esta presente em Miller, que acaba aceitando o caso e reconhecendo que a situação que será colocada para o júri é acima de tudo uma questão de valores que pedem para serem revistos e visto sobre outra óptica. Dessa maneira, sob o olhar de Miller, que conhecemos Beckett, independente de sua opção sexual, mas sob a análise de uma pessoa, um ser humano que não foi julgado por seus méritos, mas por sua condição.

Que falar da interpretação de Hanks, que tem seu auge na curiosa e perturbadora apreciação de ópera, em que o olhar fixo de Miller só sugere que começamos a entender o quanto de sofrimento uma pessoa sozinha, segregada e discriminada pode guardar em sua alma.

As sequencias de tribunal são um show de eloquência e de concatenação de ideias.

Demme investe, assim como em “O Silêncio dos Inocentes” em planos fechados e closes quando trata seus personagens, e muitas vezes temos a impressão de estarem falando conosco quando soltam suas falas diretamente para a câmera objetiva (subjetiva na verdade, uma vez que representa a visão do interlocutor). Suas câmeras e travellings aéreos são poderosos.

Por mais que possa ser acusado,inclusive no meu ponto vista, de amenizar o tema, Demme cria um retrato sensível, lindamente concluído com o vídeo caseiro de Becket quando criança. Assim,  julgar um ato é diferente de julgar uma pessoa, e espero que possamos olhar para os nossos semelhantes como seres humanos e estar fazendo justiça a essa condição, independente de gostar ou não do que são ou fazem.

Philadelphia, 1993

Direção: Joanathan Demme

Roteiro: Ron Nyswaner

Fotografia: Tak Fujimoto

Produção: Edward Saxon

0 Amantes do cultcomentario até agora.

Postar um comentário