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terça-feira, 7 de agosto de 2012 às 10:49 Postado por Gustavo Jacondino 0 Comments



Que dizer deste belo filme de Steve Mcqueen? Soa como um misto de Closer com Taxi Driver, no melhor estilo Dogma 95 (quebrando algumas regras deste, sim, é verdade, mas usando as que emprega com uma maestria e dramaticidade incríveis).
Shame conta a história de Brandon, sujeito bem sucedido que vive em Nova York  interpretado por Michael Fassbender que tem problemas com relacionamentos, se entregando a uma vida sexual banal, frívola, sem limites. Até que sua irmã Sissy (Carey Mulligan) chega à cidade de surpresa e se hospeda em sua casa.

Já logo de início temos contato com a vida sexual de Brandon, analisada de maneira bem ritmada por Mcqueen, com auxílio de uma trilha que remete a uma tensão constante, não encontrando nenhum pudor ao enquadrar a nudez de Fassbender, sem que isso acabe soando apelativo demais. Na verdade o filme soa com a naturalidade de uma sinfonia humana, apresentando-nos a vida de Brandon numa cadência que evoca o cotidiano e nos concedendo uma noção de como suas atitudes podem evocar para si mesmo o título do filme.

O desempenho da autodestrutiva Sissy cantando New York New York está entre uma das cenas inesquecíveis do filme, que emociona e inspira admiração. Fassbender encara o drama pessoal de seu personagem de maneira tão intensa, quase que de maneira estoica, que vemos realmente sua vergonha e escapismo sexuais como uma súplica de ajuda por conta de um passado a que não somos apresentados, mas que ecoa quando Brandon indaga a uma personagem em dado momento da trama se pudesse viver em outro lugar e em outra época, onde viveria. Ou mesmo quando Sissy afirma que não são más pessoas, mas que só vieram de um lugar ruim. A tentativa de Brandon de tentar consumar aquilo que poderia se tornar um relacionamento mais duradouro acaba lamentavelmente se tornando falho.  Que dizer da discussão dos irmãos, quando ao fundo a televisão passa algum desenho animado, insinuando que a origem de tudo aquilo pode estar numa infância conturbada compartilhada pelos irmãos. Mesmo a tentativa de Sissy de reconstruir laços com o irmão acaba por desencadear uma onda de inconformismo neste que só pode ser atenuada por uma longa, intensa, violenta, misógina e inconfortável jornada sexual, e em Sissy fazendo jus à sua personalidade auto punitiva.



Com um final que soa até com uma chama de esperança, inconformismo, e desconforto Mcqueen entrega ao espectador a chance de preencher o desfecho com aquilo que achar melhor, com base no que presenciamos. O desfecho realmente me agradou, no sentido de Mcqueen poder fechar um padrão visual com as cenas iniciais, e a maneira como a dubiedade reina naquele epílogo remete a dificuldade da decisão. Que tipo de poder exercemos sobre nós mesmos? Somos capazes de mudar? Mas a que custo, em que circunstâncias? São esses memoráveis pensamentos que o belo filme de Mcqueen evoca.

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