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Com a responsabilidade de dar continuidade a um dos melhores filmes de ficção científica da história, “Blade Runner 2049” é um filme que remete constantemente ao original em citações e construção de clima e atmosfera, contando com uma primeira metade arrebatadora e promissora. Porém algumas decisões tomadas no decorrer da trama fazem com que o brilho do longa se apague aos poucos e, apesar de ser um ótimo filme, fica um pouco distante da genialidade do original.



O diretor Denis Villeneuve, desde os primeiros minutos de filme mostra ser a pessoa certa para dirigir “Blade Runner 2049”. Com um olhar distante e racional, que põe as ações todas em perspectiva e nos convidam a refletir sobre cada frame , além do ritmo cadenciado que remete ao filme original, a narrativa nos trás de volta à cosmopolita Los Angeles depois de trinta anos, povoada de propagandas de marcas que ainda sobrevivem (Sony, Coca Cola) e outras não mais (Pam an) no nosso mundo. Fotografado com maestria por Roger Deakins as imagens são poderosas e permeadas por uma trilha sonora pouco inspirada de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch, que apesar de funcionar na maioria das sequências, é ao mesmo tempo incapaz de criar uma personalidade própria para a continuação, uma vez que remete constantemente e de maneira monocórdica ao tema composto por  Vangelis no filme original.


Um dos aspectos mais fortes de Blade Runner é que toda a discussão sobre humanidade e as diferenças entre humanos e replicantes torna-se uma grande alegoria sobre a exclusão e desumanização de certos grupos por outros, algo recorrente na história em épocas de guerra, escravidão dentre outras motivações. Esse aspecto fica mais reforçado quando, buscando o conceito de replicante aplicado ao filme, vemos que estes são produto de engenharia genética, criados em larga escala com características pré-determinadas, e não simples robôs eletrônicos. Mesmo a questão que envolve as memórias implantadas nos replicantes encontram eco em nós mesmos, afinal quando nos emocionamos com um filme ou lemos um livro, aqueles sentimentos são reais, como se tivéssemos vivido aqueles momentos, que nunca aconteceram conosco. Nesse sentido o personagem de Ryan Gosling  é interpretado, muito acertadamente, com um estoicismo e uma constante sensação que vazio nos olhos. Sua relação com Joi (Ana de Armas), assume um caráter muito interessante por nos fazer questionar a imagem que esta assume, de mulher servil que diz só aquilo que K quer escutar , fazendo com que um “eu te amo” soe ao mesmo tempo artificial e vazio, refletindo a vida mecânica e sem sentido que o Blade Runner vive, mas ao mesmo tempo quando Joi sente as gotas de chuva pela primeira vez isso confere um ar de consciência à personagem, fazendo – nos constantemente perguntarmos sobre sua natureza. O personagem de Jared Leto é a personificação de um capitalismo frio impessoal, porém o personagem aparece pouco e ator acabe entregando sua melhor performance no papel no curta que antecede ao longa que fora divulgado na internet. Sylvia Hoeks interpreta Luv, que assume aqui a função de vilã do filme. Sua presença é forte, mas também acaba por ser o grande ponto fraco do filme, que pinta sua presença com um maniqueísmo desnecessário e sua atuação evoca uma emoção de profundo ódio que não condiz com a maneira como os replicantes projetados para ser, seres com certo ar de frieza oriundo de emoções refreadas. A personagem de Robin Wright tem presença e forte personalidade , mas é tratada de maneira unidimensional pelo roteiro. Carla Juri interpreta uma personagem importante para o desenvolvimento da trama, porém a maneira inocente e infantil com que compõe sua personagem, dando um ar de imaturidade, não condiz com o destino reservado para sua personagem e nem para a função que ela exerce quando aparece pela primeira vez no longa. A presença de Deckart faz uma importante ligação como o primeiro filme e conta com uma atuação bem expressiva de Harrison Ford, que reforça a passagem de tempo sofrida pelo personagem e suas dores e amarguras. Porém as decisões reservadas para a segunda metade do filme enfraquecem os discursos construídos, como o desfecho dado para Joi Luv. As mortes mostradas no filme contam com o olhar distante de Villeneuve e são retratadas de maneira forte e brutal. Somado ao fato da maioria das personagens que morrem serem mulheres, o filme acaba sendo um exemplo infeliz de mais uma produção Hollywoodiana que retrata as personagens femininas com superficialidade, para não citar a maneira como os dois personagens negros do filme são mostrados como figuras à margem daquela sociedade dominada por homens brancos caucasianos. Por mais que se queira enxergar nisso uma crítica, o filme em si não parece dar se comprometer muito com ela a medida que avança em sua história. Mesmo a decisão de dar importância a uma personagem feminina no desfecho soa tardia e ineficiente.



Mesmo que as ideias construídas na primeira metade não tenham o melhor desenvolvimento no decorrer do filme, cabe ressaltar que a trajetória de K é o grande acerto do longa. Numa época em que narrativas formatadas pela jornada do herói são constantes e onipresentes, criando a ideia do predestinado versus aquilo que é ordinário e comum, ver um personagem que descreve o arco de K através de “Blade Runner 2049” é enxergar que a solução para os problemas da nossa sociedade, que não passa muito longe daquela Los Angeles cosmopolita, superpopulosa e poluída, está no momento em que passamos a nos importar com o outro ao invés de nos fecharmos em nos mesmos, desenvolvendo a empatia, que despertada por um replicante só revela o milagre da sua natureza humana.



Direção: Denis Villeneuve

Elenco: Ryan Gosling , Harrison Ford , Robin Wright , Ana de Armas , Sylvia Hoeks , Dave Bautista , Tómas Lemarquis , Mackenzie Davis , Hiam Abbass , Jared Leto, Carla Juri

Roteiro: Hampton Fancher , Michael Green

Produção: Broderick Johnson , Bud Yorkin , Andrew A. Kosove , Cynthia Sikes

Fotografia: Roger Deakins

Música: Benjamin Wallfisch , Hans Zimmer

Montagem: Joe Walker

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