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domingo, 17 de julho de 2016 às 21:58 Postado por Gustavo Jacondino 0 Comments


Diretor versátil e dono de uma carreira prolífica, que englobam os mais variados gêneros, Jonathan Demme é um diretor que adapta seu talento e sua visão de mundo ao filme que realiza, e não o contrário. Porém, analisando alguns de seus filmes mais famosos, podemos notar traços únicos e estratégias que se repetem no decorrer de sua filmografia. Uma em particular se sobressai e particularmente me chama a atenção, por consistir na mesma técnica empregada em diferentes contextos produzindo efeitos diferentes.
A técnica empregada pelo diretor consiste em filmar os seus personagens olhando diretamente para a câmera, num close-up, um recurso que por vezes beira ao estilo documental em alguns filmes, que por sinal é um dos gêneros que Demme tem contribuído bastante ultimamente.

Capítulo 1 – Sob o Domínio do mal e o suspense conspiratório

Comandando a refilmagem de Sob o Domínio do mal de 1962, de John Frankenheimer, que parodiou o macarthismo no cinema em plena Guerra Fria num enredo que envolvia lavagem cerebral por parte dos norte-coreanos como por parte dos anticomunistas do governo americano. A refilmagem de Demme, em época de eleição e em plena Guerra do Iraque, agora responsabiliza as grandes corporações nessa grande conspiração que manipula o candidato à presidente dos Estados Unidos. Ajudando a criar o clima conspiratório e de suspense, a constante incerteza é invocada pela trilha e pelos silêncios, e filmar o olhar incerto dos personagens diretamente, como se participássemos daquela trama, é ao mesmo tempo eficiente e imersivo.



Título Original: The Manchurian Candidate, 2004

Direção: Jonathan Demme

Roteiro: Daniel Pyne

Trilha Sonora: Rachel Portman

Fotografia: Tak Fugimoto

Elenco: Denzel Washington, Meryl Streep, Liev Schreiber, Kimberly Elise, Jon Voight, Jeffrey Wright, Vera Farmiga

Capítulo 2 – A Verdade Sobre Charlie e o thriller bem humorado

Comandando mais uma refilmagem, desta vez de Charada, de Stanley Donen, Demme remete às comédias que dirigiu mais no início da carreira. Aqui as provocações e os absurdos típicos da comédia tentam funcionar com uma narrativa policial que tem um grande segredo guardado no final, além de uma homenagem ao cinema francês.

 




Reparem acima a diferença. Demme quer que participemos da cena, nos sintamos imersos no que está acontecendo, em vez de sermos meros espectadores.


Título Original: The Truth About Charlie, 2002

Direção: Jonathan Demme

Roteiro: Jonathan Demme, Steve Schmidt

Fotografia: Tak Fugimoto

Trilha Sonora: Rachel Portman

Elenco: Mark Wahlberg, Thandie Newton, Tim Robbins



Capítulo 3 – Filadélfia e o preconceito colocado em xeque

No excelente Filadélfia, Demme procura constantemente colocar em evidência o nosso julgamento em relação ao outro, trazendo uma história que envolve um grande tabu na época: a AIDS. Comovente e marcante, o destaque vai para as cenas de tribunal, soberbas. Aqui, quando Demme enquadra seus personagens olhando para a câmera, é como se eles falassem conosco, colocando em cheque nossos julgamentos e nos fazendo pensar sobre eles. O diretor também faz uma introdução fantástica ao som de "Streets of Philadelphia", de Bruce Springsteen, filmando pessoas comuns que acenam para a câmera, mostrando o interesse do cineasta pelo realismo documental.












Título Original: Philadelphia, 1993

Direção: Jonathan Demme

Roteiro: Ron Nyswaner

Fotografia: Tak Fugimoto

Trilha Sonora: Howard Shore

Elenco: Tom Hanks, Denzel Washington, Roberta Maxwell, Buzz Kilman

Capítulo 4 – O Silêncio dos Inocentes e a claustrofobia de uma Obra-prima

Narrando a história de uma mulher que tenta firmar uma carreira no FBI, Demme retrata o constante desconforto de Clarice em um meio dominado por homens. Nada mais natural que ela passe a perseguir um assassino de mulheres. Aqui a sensação de sufoco e desconforto é evocada pelos closes bem fechados, mais uma vez contribuindo para a imersão nas cenas e no próprio entendimento dos personagens. As cenas que envolvem Hannibal Lecter maravilhosamente tensas.



 

 
 

 



 

 



  


  



 
Título Original: The Silence of Lambs, 1991

Direção: Jonathan Demme

Roteiro:Ted Tally, baseado no livro homônimo de Thomas Harris

Fotografia: Tak Fugimoto

Trilha Sonora: Howard Shore

Elenco: Jodie Foster, Kasi Lemmons, Scoot Glenn, Anthony Hopkins, Ted Levine


Capítulo 5 – O Dragão Vermelho e a imitação
Brett Ratner, reconhecendo que estava entrando em terreno já explorado por Demme e Ridley Scott em filmes anteriores, ao ingressar na série de filmes de Hannibal Lecter resolve repetir aquilo que dera certo em O Silêncio dos Inocentes. Dessa forma, o diretor passa a executar enquadramentos que lembram muito os de Demme nos diálogos entre personagens. Mas por que o efeito não é tão envolvente desta vez? Pois não basta fazer os personagens falarem diretamente com a câmera para envolver o espectador na trama. Essa é só a cereja do bolo de toda uma construção bem pensada e que ganha sentido quando se tem personagens fortes o bastante para que possamos nos sentir envolvidos.

Título Original: Red Dragon, 2002

Direção: Brett Ratner

Roteiro: Ted Tally, baseado no livro homônimo de Thomas Harris

Fotografia: Dante Spinotti

Trilha Sonora: Danny Elfman

Elenco: Anthony Hopkins, Edward Norton, Ralph Fiennes, Harvey Keitel, Emily Watson, Mary-Louise Parker, Philip Seymour Hoffman

 
Capítulo 6 – O Casamento de Rachel e o documental na ficção

Em O Casamento de Rachel Demme resolve voltar à ficção, mas desta vez abraçando uma estética totalmente diferente. Desta vez ele não precisa inserir elementos da linguagem documental para que produza a imersão que deseja no espectador. Desta vez o seu filme será feito todo como se fosse uma filmagem real de algo que está acontecendo, no melhor estilo Dogma 95. Sim, é um filme que deve muito à Festa de Família, de Thomas Vinterberg, mas é uma narrativa que cai como uma luva para a história da narcisista Kim, que se encontra numa clínica de reabilitação e vai passar uns dias na casa dos pais para celebrar o casamento de sua irmã Rachel. Naturalmente somos apresentados a uma família aparentemente perfeita, até descobrirmos alguns segredos do passado. E Demme faz belo uso da câmera errante, dos jump cuts e da música tocada no ambiente. Desta vez ele não recorre ao seu recurso usual de fazer seus personagens olharem diretamente para uma câmera subjetiva. É a câmera que deve viajar pelos cômodos, circular entre os convidados e captar o a natureza das relações naquela família. E Jonathan Demme faz isso como ninguém.



 

 





Título Original: Rachel Getting Married, 2009

Direção: Jonathan Demme

Roteiro: Jenny Lumet

Fotografia: Declan Quinn

Trilha Sonora: Donald Harrison Jr. e Zafer Tawil

Elenco: Anne Hathaway, Bill Irwin, Rosemarie De Witt, Mather Zickel

Conclusão:
Muito lembrado pela Obra-prima O Silêncio dos Inocentes, Jonathan Demme é um cineasta muito coeso ao longo de sua filmografia, e em seus elencos sempre vemos nomes recorrentes, como seu mentor Roger Corman, Bill Irwin e Robyn Hitchcock. Engajado socialmente e de ideologia liberal, não deixa de tocar em temas complexos, como o preconceito racial. Fã de New Order, seu bom gosto por música já rendeu boas trilhas sonoras para seus filmes, e o cineasta usou nos créditos de vários deles a frase em português “A Luta Continua” com o símbolo da MFA (Movimentos das Forças Armadas), em memória à Revolução dos Cravos, ocorrida em Portugal em 25 de Abril de 1974.





Estes foram só alguns filmes desse grande diretor, que tem documentários, séries de TV e concertos no currículo. Conhece mais algum filme de Jonathan Demme que gostaria de recomendar? Deixe nos comentários.









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