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sexta-feira, 19 de outubro de 2012 às 15:04 Postado por Gustavo Jacondino 0 Comments

Os momentos mais importantes da nossa vida são os primeiros. A influência que as impressões que a infância nos deixa de herança são a semente da nossa definição como seres humanos. Nesse sentido, “Árvore da vida” discorre sobre isso de uma maneira tal que promove um estudo sobre o ser humano enquanto estrutura que se forma física e psiquicamente. Contando a história de Jack O’Brien (Sean Penn adulto; Hunter McCracken na adolescência), filho mais velho do Sr. O’Brien (Bradd Pitt) e sua esposa (Jessica Chastain), que vivem numa cidadezinha do Texas durante a década de 50, e dos irmãos R.L. (Laramie Eppler) e Steve (Tye Sheridan), Jack cria um laço mais estreito com o primeiro, que tem a morte citada ao início do filme.

Imagem

Terrence Malick capta suas imagens de maneira a focar em detallhes como mãos, olhares, angulos baixos, planos tortos e ângulos inusitados, construindo seu filme com o que parece serem fragmentos de lembranças dos seus personagens, principalmente de Jack. E ao buscar diferenciar a ‘natureza’ da ‘graça’, dando à primeira a característica de ser fria e egoísta, ao passo que a segunda se estabelece como generosa cheia de dádivas, Malick vai corroborar para que possamos concluir que uma está presente na outra, pois ao ter que confrontar a dor da perda de seu filho, a personagem de Jessica Chastain nos faz ver não só o significado da compaixão, mas sim de onde ela surgiu. Com sequências lindas do Big Bang, da formação do Planeta e do surgimento da vida, podemos presenciar a gênese da compaixão presente em dois seres pré-históricos que de certa forma acabam por ir de encontro ao puro extinto e questionar o seu papel com o outro. E quando vemos um meteoro atingir a Terra e que causará a extinção dessa espécie em particular, podemos refletir se o ato de compaixão demonstrado não é algo constante dos seres dotados da capacidade de viver, independente da espécie que pertencem. Pois essa é a única segurança e aconchego que temos num Universo que acabamos de presenciar a formação: o outro. Viver e ter a capacidade de amar se constitui na maior dádiva que a natureza nos concedeu em milênios de evolução. Quanto a presença de Deus e propósitos específicos e metafísicos da vida, essa considero ser uma criação humana muito subjetiva para a leitura daquilo que nos rodeia.

A simbologia de Malick atinge objetivos religiosos bem específicos, mas que também louva a ciência, como na cena em que a mãe irá dar luz ao seu filho e vemos uma criança sair de uma casinha debaixo d’agua, remetendo a origem aquática da célula primitiva já mostrada anteriormente pelo cineastra.

A maneira como Malick contrasta dois mundos diferentes para Jack se estabelece quando o vemos adulto, rodeado por ambientes geométricos que exprimem a sensação de vazio e inexpressividade pela quase ausência de elementos de decoração e por um ar sempre formal. Em contrapartida as passagens que envolvem a sua infância surgem com a ambientação que mostram calor humano, do quintal, às histórias contados por sua mãe, a exploração dos ambientes que empreende na companhia de outros garotos, até a criação que seu pai lhe imprime. Esta tem uma importância fundamental através do constaste que proporciona, remetendo às definições de ‘natureza’ e ’graça’ anteriormente citadas. Enquanto sua mãe é doce, gentil, amável, o pai é duro, severo, exigente e punitivo. Um representa as belezas do mundo e aquilo que pede admiração e amor, devolvendo-os em dobro. Outro representa as durezas do mundo, a luta contra a própria destruição e a vontade do auto-crescimento a fim de se estabelecer como ser diante de tudo que vai contra isso. Na minha visão, enquanto uma vem da capacidade de admirarmos e compreender o mundo, do nosso contato e compreensão da natureza, a segunda se encontra mais presente na sociedade construída através do tempo, através da afirmação do indivíduo e da necessidade de sobreviver às intempéries da sociedade de consumo. Posso complementar dizendo que essa estrutura social construída pelo ser humano encontra paralelo na própria vida na natureza, que sempre cobrou de nós (mais de nossos ancestrais  sem dúvida) a capacidade de enfrentar adversidade, oponentes mais fortes e adaptação ao que estava por surgir. Mas as duas maneiras de viver se completam, não se vive uma sem sentir falta da outra. Malick nos aconselha então que valorizemos a descoberta, a curiosidade, o amor. Dessa maneira a plenitude da vida será atingida fazendo uso de todas as ferramentas que a natureza nos entrega para que possamos viver. E descobrindo isso, Jack é capaz de olhar para o seu mundo frio e enxergar um lampejo de esperança. Quiça possamos também fazer o mesmo.

The Tree of Life, 2011

Direção: Terrence Malick

Roteiro: Terrence Malick

Diretor de fotografia: Emmanuel Lubezki

Compositor: Alexandre Desplat

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