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quinta-feira, 30 de agosto de 2012 às 20:08 Postado por Gustavo Jacondino 0 Comments

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Se Laranja Mecânica é um filme sobre violência, Apocalipse Now é sobre guerra e Todos os homens do Presidente sobre investigação jornalística, A Doce Vida é um filme sobre a trivialidade e futilidade. Na verdade, assim como os longas que usei como exemplo, é um épico sobre o assunto.
O jornalista Marcello esforça-se para encontrar o seu lugar no mundo, dividido entre o fascínio da elite romana e a domesticidade sufocante oferecida pela namorada, durante todo o tempo à procura de um caminho para se tornar um escritor sério.

Ao mesmo tempo em que pretende mostrar a queda de seus personagens e seus mundos vazios, também passa um encanto e fascínio desse mundo. A expressão paparazzi vem do personagem Paparazzo, que simboliza a multidão de repórteres fotográficos que aparecem seguidamente em cena. Marcello Mastroianni representa a queda em seu sentido mais amargo, porem em sua forma mais cool, com seus ternos e óculos escuros. Ele já fora um escritor sério, mas agora é só um jornalista barato no meio da alta sociedade romana no verão de 1959. Entre esses "bon-vivants" estão príncipes, políticos, artistas sem talento e mais um tanto de coisas. A própria trivialidade está presente na declaração de amor de Marcello à atriz americana Sylvia, que antes ele desdenhara, e agora ela o desdenha da maneira mais infantil possível. A relação destrutiva de Marcello com sua namorada só faz aumentar o declínio de um homem que desaprendeu a amar a si próprio e consequentemente é incapaz de amar outrem. Mas o vazio de sua existência se consuma com o assassinato seguido de suicídio de seu amigo filósofo, fazendo Marcello desistir de qualquer tentativa de ter um emprego sério de que tenha interesse. E é perturbador ver a multidão de fotógrafos que cercavam Sylvia agora cercando uma pobre dona de casa que nada sabe da tragédia, ficando ela feliz na hora por achar que estão confundindo-a com uma atriz.  Depois de testemunharmos uma intensa briga com a namorada seguida de uma reconciliação tão artificial quanto à vida daquelas pessoas, descobrimos que Marcello se tornara assessor de imprensa, afundando ainda mais em sue buraco, numa daquelas festas burguesas regadas à bebida e sensualidades torpes que só uma alma que grita por socorro consegue fazer. No tema futilidades e depravação o filme de Fellini consegue, infelizmente, se manter atual.

E se a vida deu a Marcello mais uma chance para reacender a esperança em seu futuro, só poderemos crer que este não consegui escutar, do mesmo modo que não escutou a bela e angelical menina que tentava conversar com ele numa praia ao final do filme. Marcello preferiu voltar aos amigos e à vida a que já está habituado, embora não satisfeito. E assim como Kubrick que termina o seu 2001 - Uma Odisseia no Espaço com um olhar esperançoso da "StarChild", Fellini igualmente termina o seu A Doce Vida com o olhar esperançoso da jovem que tentara se fazer ouvir. Se Marcello não ouviu, nós poderíamos tentar fazer um esforço para ouvir, não?


Direção: Federico Fellini

Produção: Giuseppe Amato, Franco Magli, Angelo Rizzoli

Roteiro: Federico Fellini, Ennio Flaiano, Tullio Pinelli, Brunello Rondi

País: Itália/França

Duração: 167 min

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