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sábado, 1 de dezembro de 2018 às 19:18 Postado por Gustavo Jacondino 0 Comments



Logo nos primeiros minutos de "As Viúvas" somos impelidos  a entrar no dúbio mundo de criminalidade e violência de Chicago, ao mesmo tempo que vemos intercaladas cenas do mais puro intimismo daquelas pessoas, mostrando que Steve McQueen, de "Shame" e "12 Anos de Escravidão", sabe enxergar, assim como fizera Michael Mann em "Profissão:Ladrão", além do filme de gênero, entregando um retrato muito humano, envolvente e realista das suas personagens. 



Tendo como sinopse principal o conflito que as esposas de assaltantes devem enfrentar depois de um assalto frustrado que ocasionou na morte do grupo, o longa se estrutura como um filme de assalto a banco, como já vimos com "11 Homens e um Segredo" e seus derivados, inclusive a versão feminina "Oito Mulheres e um Segredo". Mas aqui o realismo que envolve o projeto se manifesta na adaptação da trama para a realidade política e social de Chicago, mostrando os bastidores de uma eleição distrital e retratando as motivações nada escusas dos personagens masculinos. Nesse sentido a parceria entre McQueen e Gillian Flynn no roteiro se mostra muito apropriada, pois consegue retratar a situação do negro americano no filme com propriedade e Flynn consegue captar o mundo interior feminino dando às atrizes mais expressões e olhares do que palavras ou diálogos expositivos, expressões e olhares esses muito bem retratados pela câmera fechada e cheira de closes do diretor e pela fotografia de Sean Bobbitt, seu parceiro habitual. Cabe falar que  Viola Davis é o coração do filme e faz aqui um trabalho excepcional em encarnar a sua Veronica como uma mulher determinada e corajosa, mas expondo a sua fragilidade e seus medos, bem como seus traumas. A Alice interpretado por Elizabeth Debicki é uma personagem que retrata o sofrimento de ser mulher numa sociedade machista ao mostrar que sofria violência do marido e pela maneira como é tratado pela mãe, carregando um ar melancólico e protagonizando um dos arcos mais interessantes do filme. Michelle Rodriguez aqui tem a oportunidade de mostrar que é uma ótima atriz e compõe uma personagem que tinha que lidar com chantagem emocional que seu marido usando os filhos, assim como o desrespeito que sofre no enterro de seu cônjuge. A Belle de Cynthia Erivo se insere na trama de maneira orgânica e essencial, compondo o time central de atrizes. Vale citar  Colin Farrell interpretando um político cínico e Brian Tyree Henry, que compõe um personagem quase tão ameaçador quanto Jatemme Manning de Daniel Kaluuya, que aqui não se deixa cair no esteriótipo de um vilão genérico de filme de ação, conseguindo conferir um senso de ameça  forte e convincente, quase como um Zé Pequeno em "Cidade de Deus". A cena em que pede para dois garotos cantarem Rap é num só momento tensa por conta do travelling circular que o diretor investe e ao mesmo tempo brutal pelo seu desfecho.



Steve McQueen é uma presença forte que faz se faz sentir na direção do filme, principalmente na já citada cena de abertura, bem como na discurso de um dado personagem que discorre sobre os perigos da ignorância e à medida que sua fala vai demonstrando suas reais intensões, o diretor expõe o cenário por completo. Grande destaque para uma discussão entre o político de Colin Farrell e sua assistente, em que McQueen filma com um plano bem atípico ao deixar a câmera pra fora do carro, claramente querendo que olhemos para o ambiente externo e percebamos a mudança gradual entre um bairro humilde e uma mansão luxuosa em uma região privilegiada, separados por poucos metros de distância. 



Todavia a presença de Gillian Flynn, que também fora roteirista de "Garota Exemplar"além de ter escrito o livro,  também pode ser sentida no excesso de reviravoltas que o filme passa a apresentar em dados momentos, alguns desnecessários, e outros que funcionam pela beleza da direção de McQueen, como numa cena particularmente revoltante que envolve um jovem negro dirigindo um carro e sendo abordado por um policial. Como um produto de Hollywood, o filme faz algumas concessões no seu desfecho, porém o saldo deixado pelo longa é extremamente positivo por criar uma trama envolvente, com personagens muito humanos e respeitar a inteligência do expectador o tempo todo, construindo uma reflexão social e feminista necessária nos tempestuosos tempos que vivemos. 



Diretor: Steve McQueen

Roteiro: Steve McQueen, Gillian Flynn, baseado na história de Lynda La Plante

Trilha Sonora: Hans Zimmer

Montagem: Joe Walker

Fotografia: Sean Bobbitt

Elenco: Viola Davis, Liam Neeson, Jon Bernthal, Manuel Garcia-Rulfo, Coburn Goss, Michelle Rodriguez, Alejandro Verdin, Bailey Rhyse Walters, Elizabeth Debicki, Carrie Coon, Robert Duvall, Colin Farrell, Molly Kunz, James Vincent Meredith, Brian Tyree Henry, Daniel Kaluuya, Cynthia Erivo

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