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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015 às 12:32 Postado por Gustavo Jacondino 0 Comments


Riggan Thomson (Michael Keaton) é um ator famoso por ter interpretado no cinema um icônico super-herói e está tentando emplacar uma peça na Broadway para recuperar a sua carreira. Enquanto isso ele deve cuidar da família, carreira e de sua própria condição mental.


Todas as pessoas, em maior ou menor grau, tem o desejo de serem reconhecidos, de serem amados, sejam por seus familiares, amigos, cônjuges, etc. Vamos supor que um artista que fez muito sucesso no passado e que nos dias de hoje não teve mais nenhum sucesso na carreira. Tudo que faz vai exalar a frustração de não ser lembrado por mais nada. É nesse contexto que Alejandro González Iñárritu constrói a sua crítica à indústria do cinema, dialogando com a falta de criatividade de Hollywood e a falta de iniciativa do público, que consome desenfreadamente e sem qualquer critério os ditos filmes do subgênero de “super-heróis”, tristemente ignorando qualquer iniciativa artística um pouco mais ousada.

Filmado na forma de um longo plano-sequência (assim como em “Festim Diabólico”), o trabalho de Emmanuel Lubezki se sobressai ao trabalhar as cores e movimentos de câmera de maneira que a técnica não soe gratuita, mas sim um recurso que contribui à narrativa. Sentimo-nos inseridos naquele teatro, naquelas ruas, acompanhando um grupo dedicado de atores que soam como a personificação do comprometimento e talento dentro da profissão, fugindo dos personagens pouco envolventes e genéricos dos filmes que critica. Vale citar que, além da maestria com que os planos-sequência são construídos, o filme não perde a chance usar elipses de tempo de maneira hábil, sem confundir o expectador, refletindo as boas decisões de se colocar a câmera no lugar certo no momento certo.

A trilha sonora se constrói toda por meio de percussões, em um trabalho muito inventivo que estabelece certo ritmo a algumas sequências. Por vezes Iñárritu brinca com o uso de uma diégese para a trilha no meio das cenas.

Riggan Thomson, curiosamente interpretado por um ex intérprete de Batman, é o homem frustrado na carreira e na vida familiar, que esquizofrenicamente ouve a voz de seu antigo personagem e se imagina em momentos oníricos de grandeza, possuidor de estranhos poderes. É impossível não falar da atuação intensa de Michael Keaton, que consegue manter o ritmo ao longo dos planos-sequência. Escravo de seu personagem, ou como sugere um “diálogo”, de si mesmo (como todos nós), Thomson alterna momentos de descontrole e tristeza com momentos de pura energia e simpatia, conseguindo criar um encadeamento lógico entre uma emoção e outra, entre uma reação e outra, as várias faces de uma mesma personalidade.

Shine (Edward Norton), apesar de desagradável em vários momentos demostra a persona de um ator comprometido ao extremo que almeja a simples e pura excelência em sua arte, não importando os meios que utiliza para tanto, quase sugerindo um personagem que tem o fetiche de ser sempre odiado.

Sam (Emma Stone) é o reflexo dos problemas familiares de Thomson, apresentando as características dos personagens autodestrutivos com problemas com drogas, já tantas vezes retratados, mas vivida com muito apelo e charme.

A representação da crítica especializada externa a frustração de qualquer artista pela falta de reconhecimento pelo trabalho empregado e pode até soar clichê, mas a representação não deixa de ser verdadeira em muitos casos.


Com um final aberto a interpretações múltiplas, fica claro que é um filme sobre os bravos personagens que personificam nossos sonhos de grandeza no reino da fantasia financiado pelo cinema. Muitas histórias podem ser contadas e ao vermos um filme, não vemos o filme em si, mas vemos a nós mesmos em contraste com uma narrativa, dando-lhe sentido, reflexão, desejos, ou mesmo preconceitos já impregnados em nossa personalidade. Pois que nós, como expectadores, sejamos mais exigentes com as obras de arte que assistimos, não nos contentando somente com simples escapismo do tipo “mais do mesmo”, mas valorizando momentos únicos de criatividade que o cinema é capaz de criar.




Direção: Alejandro González Iñárritu

Elenco: Michael Keaton, Emma Stone, Edward Norton, Naomi Watts, Zach Galifianakis

Fotografia: Emmanuel Lubezki

Roteiro: Alejandro González Iñárritu

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