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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014 às 12:49 Postado por Gustavo Jacondino 0 Comments

A vida numa rua de classe média na zona sul do Recife toma um rumo inesperado, após a chegada de uma milícia que oferece a paz de espírito da segurança particular. A presença desses homens traz tranquilidade para alguns, e tensão para outros, numa comunidade que parece temer muita coisa. Enquanto isso, Bia (Maeve Jinkings), casada e mãe de duas crianças, precisa achar uma maneira de lidar com os latidos constantes do cão de seu vizinho.


Imagem

Muitas vezes um filme não se define por si só, mas faz sentido quando visto num contexto mais amplo de outras obras. Sempre uso como exemplo o longa ”Crash”, de David Cronenberg, que pra mim só se torna um complemento da sua obra anterior e uma citação para as obras futuras. Não é a toa que vemos um pouco de “Crash” em, por exemplo, “Marcas da violência”, onde Cronenberg faz um verdadeiro estudo de comportamento e relacionamento através de duas cenas de sexo entre seus personagens. Assim, a minha primeira impressão sobre “O Som ao Redor” foi um pouco deturbada pela minha má interpretação das intenções do diretor. Todavia, ao fazer uma sessão dupla com o improvável “Waking Life” de Linklater, passei a pensar em ambos os filmes como crônicas, cada um com um foco diferente.


O filme de Kleber Mendonça Filho nos proporciona a visão pessoal da vida em um bairro de Recife, através de uma narrativa baseada numa sonoplastia construída através de um misto de sons diegéticos, fazendo-se uso do conceito de “ponto de vista sonoro” para cada personagem, selecionando, dessa forma o som ambiente para proporcionar ao expectador o mundo interno de cada personagem.


Vindo à tona fotos em preto e branco do nosso passado seguido de um corte seco para um menino de bicicleta e uma garota de patins num plano – sequencia muito bem construído, podemos perceber a intensão do filme: traçar um panorama da vida da classe média, considerando seus anseios, angústias e, principalmente, o aparente marasmo de suas vidas. Filhos de passado cruel, que se reflete na maneira como Francisco administra a ‘sua rua’, como se fosse o seu engenho, recrutando membros da família para o trabalho e protegendo o seu neto relapso e criminoso, a classe média retratado parece não ter um passado ou uma história da qual se orgulhe, se refugiando em seus roubos, em seus eletrodomésticos, em suas frustrações, em suas melancolias. Uma classe que termina por vender sua vida por um salário mínimo ou por programas de televisão vazios de significado.


“O Som ao Redor” apresenta um clima de tensão crescente, em particular com a chegada de um personagem que tem a proposta de proporcionar ‘segurança’. Pois com a chegada de Clodoaldo, vemos evidenciada mais uma paranoia dos personagens retratados: o seu isolamento domiciliar, o medo do contato. Numa sociedade fundada por meio de violência e sustentada por ela, não é de se espantar que as coisas cheguem nesse nível de paranoia.


http://www.youtube.com/watch?v=wweuSi_krNs

Logo de cara me senti tentado em encarar “O Som ao Redor” como um filme de vingança e, se assim fosse, o longa estaria a todo o tempo escondendo o jogo, para causar o impacto da revelação baseado num foco em histórias que não exercem nenhuma função para o filme como um todo. Se fosse um filme de vingança. Mas seria julgar todo um filme por uma revelação que surge no final. Sendo que a referida revelação só contribui para a visão que expus até aqui. Não, “O Som ao Redor” é uma crônica sobre a vida da classe média brasileira no microcosmo de um bairro de Recife, um retrato pessoal e intimista que Kleber Mendonça Filho constrói, não se preocupando com uma trama em específico, mas sim em retratar a vida daquelas pessoas na dimensão exata em que se sucede. Assim como “Waking Life”, que promove uma exploração interior no aspecto da sensação, dos sentidos e da filosofia, “O Som ao Redor” promove a nossa auto exploração enquanto membros de uma sociedade construída nas condições que conhecemos.


Direção: Kleber Mendonça Filho

Duração: 131 minutos

Música composta por: DJ Dolores

Roteiro: Kleber Mendonça Filho

Elenco: Maeve Jinkings, Gustavo Jahn, Irma Brown, Ana Rita Gurgel,Caio Almeida, Irandhir Santos, Júlio Rodrigues, Sebastião Formiga,Lula Terra, Dida Maia, Felipe Bandeira, Waldemar José Solha,Mauricéia Conceição, Graziela Santos da Rocha, Gabriela Santos da Rocha

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