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sábado, 8 de setembro de 2012 às 08:24 Postado por Gustavo Jacondino 0 Comments

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Instigante é pouco para tentar descrever esse filme de Pedro Almodóvar. O grande cirurgião plástico Robert Ledgard (Antonio Banderas), após a esposa ter morrido carbonizada num acidente de carro, resolve desenvolver um novo tipo de pele mais resistente. Para tanto ele usa uma cobaia humana, Vera (Elena Anaya).


Robert é aquele tipo de profissional altamente dedicado, que enxerga em seu trabalho a sua arte. Porém não tem um mínimo de escrúpulos para tornar realidade aquele que é o seu maior objeto de pesquisa.

Vera aparece como um verdadeiro rato de laboratório humano. Presa num quarto recebe comida e livros e é monitorada por Robert. É interessante notar a pele que ela usa por cima da pele original como uma capa, a fim de dar forma e modelar os tecidos, dando uma impressão de plasticidade principalmente quando ela faz seus exercícios habituais, que visualmente casa de maneira maravilhosa com as pequenas esculturas de barro cobertas por tecidos. E mesmo sabendo que sua pele se trata da mais resistente que existe, parece ao mesmo tempo tão frágil, na mesma medida da beleza de Vera.

Igualmente interessante é notar a casa de Robert, cheia de livros e quadros, decorada de maneira a valorizar cores sóbrias, sendo que o vermelho surge em alguns momentos de destaque na trama.

Como de hábito somos presenteados pelo senso de humor peculiar de Almodóvar em dados momentos-chave. Ora, de que maneira uma mão reconhece um filho? Se não pelo seu rosto, então é de se supor que o menino recebeu muitas palmadas na infância.

Surgindo num flashback revelador e ao mesmo tempo surpreendente, a história de Vera nos faz pensar também em quem é de fato Robert. E não creio ser preciso de muitos detalhes sobre seu passado para conseguirmos entender a atitude atribuída a sua esposa, afinal se ele teve a frieza e crueldade de levar adiante seu experimento como terá sido a vida ao seu lado? E a própria maneira como a filha veio a tratá-lo é quase uma confissão de que no fundo ela o via como uma ameaça, só faltava uma para poder atribuir a ele.

Mas o grande questionamento do filme é sobre a nossa própria identidade, afinal, o que nos define como pessoas? Nossa família? Nosso dinheiro? Nossa constituição física? Nosso sexo? Até onde mudanças nessas categorias fariam com que nós deixássemos de ser quem somos para nos tornar outra pessoa? Parece que Robert se deixou levar pelas aparências e se esqueceu do que há por baixo dos tecidos visíveis do corpo humano. Há um passado, uma memória, uma história e pode-se escolher fazer jus a ela ou não. Criamos nosso futuro sendo coerentes com nossa história ou com nosso estado atual? Ou ambos se misturam?

Enfim, com um final que consegue ser estranhamente engraçado pela sensação de absurdo (tenho a sensação que a personagem Cristina está mais rindo do que chorando) e dramático pela situação em si, longe de dar respostas, Almodóvar elegantemente nos entrega poderosas perguntas. E faça com elas o que bem entender.

La Piel Que Habito, 2011

Direção: Pedro Almodóvar

Produção: Agustín Almodóvar, Esther Garcia

Roteiro: Pedro Almodóvar, Thierry Jonquet

Música: Alberto Iglesias

Fotografia: José Luiz Alcaine A.E.C.

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