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quarta-feira, 4 de junho de 2014 às 22:01 Postado por Gustavo Jacondino 0 Comments

Um dia Georges (Daniel Auteuil) e sua esposa Anne (Juliette Binoche) recebem uma fita de vídeo com imagens de sua casa, que fora filmada por uma câmara instalada na rua juntamente com alguns desenhos sinistros. Assustado, o casal tenta descobrir o autor daquelas misteriosas ameaças. Logo percebem que quem os persegue conhece mais sobre o seu passado do que eles poderiam esperar.


Imagem

Por mais que amemos ter nossas emoções manipuladas pelos filmes, estes não passam de imagens captadas e montadas para nos passar tais impressões. E se, no início de” Caché”, achamos que estamos vendo o filme enquanto narrativa do diretor, na verdade estamos vendo uma fita que tem existência própria dentro do longa. Porém, até onde vai as imagens captadas pela fita que tanto ameaçam o protagonista, e onde começa a narrativa de Michael Haneke? Pois, entre uma e outra, há, de fato, alguma diferença?


Preferindo não criar nenhum tipo de identidade em termos de fotografia, como uma iluminação diferente, para diferenciar as imagens filmadas da narrativa do longa, Haneke nos somente permite perceber que se trata da fita quando seus personagens a assistem ou quando vemos que a objetiva não se meche. Mas, por assim dizer, muitos planos do filme poderiam ser oriundos do misterioso cinegrafista. Como confiar naquilo que vemos?


Pois se daquilo que vemos construímos lembranças, e estas constantemente são reeditadas pela nossa mente, é sabido que muitas das lembranças ou detalhes que temos de determinados momentos não são de todo reais. Estaria o protagonista escondendo algum segredo por trás do conflito que tem com o personagem que surge em dado momento da trama? Suas lembranças são reais? Ou é o que ele acredita serem reais? Sim, há grande diferença entre o que é real, e aquilo que acreditamos ser real. Se cada indivíduo tem as suas impressões da realidade, de maneira a construir a sua visão própria e pessoal dela a comunicação exerce o seu papel chave de tentar encontrar fatos, e não interpretações. E é isso que Haneke faz em seu filme, dialoga com o expectador sobre o que é real e o que ainda permanece em segredo na história de Georges, e o cineasta conta com uma parcela de cumplicidade do público para que se realize a sua intenção nesse filme.


Georges, personagem centro do segredo da trama, aos poucos vai conduzindo o expectador à uma série de dúvidas e incertezas, que faz com que seja, ao final do longa, tão incerto e misterioso quanto a imagem que o filma. E Anne também reflete essa incerteza no relacionamento com o marido e em si própria, tornado complexa e muito bem sucedidas as performances de Daniel Auteuil e Juliette Binoche.


http://www.youtube.com/watch?v=8Dgoi6Ea59k

Manipulando o publico constantemente, mas ao mesmo tempo entregando as ferramentas que usa para fazê-lo, Michael Haneke pretende criar um expectador mais crítico e que saiba que um filme é só um filme, mas que ao entregar as suas emoções ao fluxo de uma narrativa, deve ter em mente que refletir sobre ela por vezes é mais importante do ter todas as respostas prontas ao seu final.


Direção e roteiro: Michael Haneke


Elenco: Daniel Auteuil, Juliette Binoche, Maurice Bénichou, Annie Girardot

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