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terça-feira, 30 de junho de 2026 às 09:37 Postado por CultComentário 0 Comments

Em meio a instabilidade política e a um clima de conspiração, “Dia D” segue um fugitivo chamado Daniel (Josh O'Connor) que está de posse de arquivos confidenciais que provam a existência de vida alienígena. Ele cruza o caminho de Margaret (Emily Blunt), uma jornalista que começa a sofrer fenômenos inexplicáveis. Juntos, eles precisam escapar de uma poderosa corporação, liderada por figuras obstinadas como Noah (Colin Firth), que tenta encobrir a verdade.

Dia D” é  um filme que reforça o quanto o diretor Steven Spielberg é um filho da ficção científica dos anos 1950 - dentro da tradição dos filmes B que formou inclusive John Carpenter - e dos pactos com a realidade que esse tipo de cinema fazia: abraçando mais o cultivo da curiosidade e o maravilhamento da descoberta do que a verosimilhança.

Isso pode ser visto na maneira como o diretor de fotografia Janusz Kamiński utiliza flares e fortes pontos de luz. Em algumas cenas, enquadra personagens contra fontes luminosas e em outras utiliza o escuro para contrastar com a luz, dificultando a visão completa da imagem, criando, consequentemente, a sensação de algo oculto prestes a revelar-se. Em vários momentos Kamiński parece apenas simular a luz natural - as fontes luminosas parecem incorporadas diretamente ao design do cenário, como se a luz emanasse de fontes do próprio ambiente (como lâmpadas e monitores). Consequentemente, a paleta de cores é distinta da que é comumente praticada em filmes modernos. É possível ver mais cores primárias e luzes coloridas, sem aquele desnaturado tom pastel que se convencionou chamar de “realista.”

Acessando o passado traumático através da teatralidade - uma casa que remete às memórias da infância e que permite lembrar de eventos angustiantes - a dupla de personagens centrais, Daniel e Margaret, encarnam a maneira como o diretor exorcizou, através dos filmes, o trauma da separação dos pais - um exemplo marcante é o drama de Elliot em “E.T. O Extraterrestre” - bem como encenam uma verdadeira homenagem às potencialidades do cinema.

Assim como “Superman”, de James Gunn, “Dia D” advoga pela importância do jornalismo, colocando-o no clímax do filme. Ademais, Spielberg acrescenta uma nova camada nesse ponto ao filmar uma âncora visivelmente afetada pela notícia que ela torna pública, quebrando a frieza institucional comum de se ver nesses profissionais dentro da mídia hegemônica e reforçando o envolvimento afetivo com o outro como uma temática forte de “Dia D”. 

O Spielberg maduro, que entrou neste novo século com diversos filmes marcantes, movimenta a câmera com constância e elegância. Em “Dia D”, essa movimentação é fluida, viva e controla o ritmo da história, que transita entre o filme de perseguição e o filme introspectivo, que tenta desvendar as emoções por trás dos closes em seus atores - e quando faz isso encontra atuações inspiradas que elevam o filme.

Uma cena em particular chama a atenção. Quando um personagem segura na mão um dispositivo que lhe permite localizar quem procura, a personagem, uma ex-noviça, segura uma cruz. Spielberg usa o plano para comparar os objetos: filma as mãos no mesmo ângulo fechadas e em paralelo - uma na sequência da outra, construindo um sentido, que trata o objeto extraterrestre de maneira familiar com a cruz. Como se ver através dos olhos do outro fosse sagrado, espiritual. De fato é, dada a importância que a empatia tem no longa. Nesta cena em particular, o uso que o personagem faz do dispositivo torna a cena semelhante a uma possessão, protegida pela cruz, reforçando a importância da espiritualidade em “Dia D.”

A espiritualidade e empatia, bem como a curiosidade e a descoberta - regidos por uma delicada trilha sonora do maestro John Williams - direcionam “Dia D” como um filme popular que não cai nas tendências cínicas e distópicas de um realismo pouco imaginativo. 

Outro aspecto que se sobressai em “Dia D” é a harmonia que a equipe de Spielberg apresenta. A trilha aparece, mas o filme tem importantes momentos de silêncio; a fotografia cria um balé de luzes, mas sabe utilizar também o escuro e a sobriedade; o diretor movimenta sua câmera, mas se detém em algumas cenas e o roteiro evoca ideias para uma ficção científica mais direcionada aos afetos que à razão. Como um todo, o filme sabe dosar as suas forças e criar uma unidade estilística forte. 

Diante de um mundo tomado por guerras e caos, e de um cinema nostálgico demais - tomado por continuações e com dificuldade de criar novas franquias - “Dia D” possui imaginação, magia e harmonia - além de tentar recuperar o senso de maravilhamento pela novidade e esperança, numa bela resposta ao desencanto da vida moderna.



Direção: Steven Spielberg

Roteiro: David Koepp

Fotografia: Janusz Kamiński

Trilha sonora: John Williams

Montagem: Sarah Broshar

Elenco: Emily Blunt, Josh O'Connor, Colin Firth, Colman Domingo, Eve Hewson, Wyatt Russell, Elizabeth Marvel, Henry Lloyd-Hughes, Courtney Grace, Jeremy Shamos, Michael Gaston, Gabby Beans, Elliot Villar, Noah Robbins, Clarke Thorell, Elizabeth Stanley, Nina White, Emily Jackson, Margo Seibert, Chavo Guerrero Jr., Brian Button, Lance Hoyt, Ron Song, Ephraim Birney,Hettienne Park, Tommy Martinez, Brandon Wilson



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