Desde que os filmes de heróis passaram a ser a regra do mainstream hollywoodiano, as tramas passaram a deixar de ser ensimesmadas em seus personagens. Compartilhar cidades, vilões e heróis pareceu uma tendência, pois remetia ao material base: quadrinhos e séries animadas praticavam isso com naturalidade. Todavia, há um custo. Os filmes se posicionam como mais um capítulo de uma grande história sem fim e desfilam personagens como atração. Isso vale para a Marvel, para a DC e qualquer estúdio que tente criar franquias nesse formato. Diferentemente de Christopher Nolan ou Sam Raimi, que podiam ver valor nos seus personagens (Batman e Homem-Aranha), em seus mundos e em suas galerias de vilões, hoje é preciso lidar com uma narrativa fragmentada, quebrada em capítulos, em que arcos de diferentes personagens são abertos para conclusão posterior.
É a realidade hoje, e dado esse contexto, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” se sai bem em lidar com essa situação, relembrando a sensação de ler uma história em quadrinhos avulsa ou ao assistir a um episódio de uma série animada do personagem - talvez seja essa a sensação que a Marvel tente insistentemente emular em seus longas, mas só neste filme isso fez sentido.
Utilizando a condição de herói e os poderes como uma metáfora da somatização de traumas, ansiedades, burnout e, principalmente, solidão, o longa ganha força quando se dedica a edificar uma dramaturgia sólida, focada no protagonista, e em selecionar com cuidado os coadjuvantes que irá utilizar - Hulk e Justiceiro combinam muito bem com as temáticas levantadas.
Sem cair em soluções fáceis, como recuperar a memória da MJ, ou em repetir aquele esquema de cores lavadas dos longas anteriores, o filme abraça a cor e o dinamismo, aproveitando o visual do uniforme do personagem, que remete aos traços dos quadrinhos dos anos 1960 desenhados por John Romita. A nostalgia também se apresenta na relação com Frank Castle, muito utilizada em quadrinhos e séries animadas e que encontra frescor no entrosamento dos atores e nas situações de comédia. Inclusive a maneira como a cidade de Nova York é filmada ganha novos contornos, mais presente e viva - não à toa o filme conclui com cenas da cidade.
A personagem interpretada por Sadie Sink acrescenta mais uma camada de grandiosidade ao filme. Em vez de um antagonismo genérico, aqui temos uma personagem que, dada a conjuntura de como a Marvel se estrutura, precisa ser apresentada com cuidado. E isso faz bem ao filme, pois se vale das similaridades que se pode encontrar entre Peter e a garota, para elevar ambos os personagens. Marcados pelo trauma e pela tragédia, ambos os personagens canalizam nos poderes suas dores e superações. Os poderes soam aqui como trágicos e fatais, em vez de uma dádiva. Se os vilões esquecíveis são um problema recorrente nos filmes da Marvel, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” resolve isso de maneira satisfatória.
Diante disso, o longa assume o seu estado fragmentado. Uma vez que um universo isolado como nos filmes do Sam Raimi é inviável, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” abraça a multiplicidade de tramas e personagens diversos, não como concessão, mas como sentido. No momento em que escolhe contar uma pequena história desse personagem, o filme evoca a narrativa do herói trágico que o engrandece. Com um conflito genuíno e facilmente identificável, focado na solidão e no burnout, a diversidade e as múltiplas subtramas mostram a riqueza do mundo em que ele vive. Talvez esse seja o filme em que o Homem-Aranha mais se sinta solitário, mesmo num universo extensamente povoado de figuras conhecidas de outros filmes e séries. O mérito é encontrar espaço para Peter Parker no meio de todos esses personagens e pôr em evidência que ele talvez não esteja tão sozinho quanto pensa.
Direção: Destin Daniel Cretton
Roteiro: Erik Sommers, Chris McKenna
Fotografia: Brett Pawlak
Trilha sonora: Michael Giacchino
Montagem: Nat Sanders, Gina Sansom, Harry Yoon
Elenco: Tom Holland, Zendaya, Jacob Batalon, Jon Bernthal, Tramell Tillman, Sadie Sink, Michael Mando, Mark Ruffalo, Liza Colón-Zayas, Marvin Jones III, Eman Esfandi, Zabryna Guevara, Billy Clements, Florence Pugh, Naomi Watts, Marisa Tomei, Keith David, Dean Meminger, Olivia Booth-Ford








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