• RSS
  • Delicious
  • Digg
  • Facebook
  • Twitter
sexta-feira, 1 de outubro de 2021 às 04:14 Postado por Gustavo Jacondino 0 Comments


Diante do caos que é a existência e da nossa busca incessante por entender e explicar tudo à nossa volta, a religião talvez seja o maior alento da humanidade. Sempre conferindo uma motivação final em cada coincidência, golpe de sorte, mérito próprio ou fatalidade, até os mistérios mais inexplicáveis e incoerências que brotam das injustiça sociais são explicadas, satisfatoriamente ou não, como parte do plano personalizado que um Deus onipresente e onisciente preparou para cada um de nós. Diante disso, "Missa da Meia-Noite" extrapola essa ideia através de uma possibilidade fantástica e seu posterior entendimento pelo prisma de uma pequena comunidade de uma ilha formada de 127 pessoas que vivem, como os apóstolos de Jesus, da pesca. Sendo uma comunidade católica, é de se supor que essa visão interpretativa e criação de sentido é construída a partir de uma base hierárquica forte ocupada pela igreja e pelas autoridades locais.

Mike Flanagan entrega aqui o seu melhor trabalho, entre os filmes e séries que já participara criativamente, se valendo de uma liberdade e desenvoltura criativa construídas ao longo de uma ótima carreira no gênero terror. Dirigindo todos os episódios, Flanagan tem domínio da mise-en-scène tornando muito rica uma aparentemente simples cena de diálogo, de troca de experiências, de monólogos e, claro, as missas. Nesse sentido, Hamish Linklater é gigante em cena, trabalhando com muito cuidado as entonações de voz que variam de acordo com o estado de espírito do personagem, numa oratória convincente e veemente por vezes, mas também atingindo tons de dúvida, pesar e conflito. O seu padre Paul é um exemplo de como uma boa intensão pode se desvirtuar para uma visão de mundo completamente torta. Zach Gilford talvez seja o mais inexpressivo do elenco, mas essa aparente inexpressividade é usada em favor de "Missa da Meia-Noite" pra compôr o conflito base da série e de fato temos apresso por Riley Flynn, algo que se comprova em uma cena que estabelece um ponto de virada na trama. Ponto de virada esse que, inclusive, estabelece uma certa mudança de protagonismo no melhor estilo "Psicose". Os personagens de "Missa da Meia-Noite" contribuem para dar textura aquela ilha e estabelecer as nuances daquela comunidade, sua hierarquia de classes e seus preconceitos, bem como suas visões de mundo distintas. É pertinente notar a sina de Erin Greene, interpretada pela sempre ótima Kate Siegel, e Riley, que tentam deixar pra trás o seu passado na ilha, mas que são obrigados e retornar, não só ao lugar onde nasceram, mas ao seu mundo interior e confrontar os seus medos e inseguranças, perspectivas de futuro ou a falta delas.

Também é um tema muito caro à "Missa da Meia-Noite" a questão da morte e como o ser humano encara a finitude, confrontando numa belíssima cena duas visões de mundo possíveis, uma mais idealista em que a morte é seguida por uma afirmação da consciência em estado de infinito gozo num paraíso idílico, outra que se mostra menos apegada à consciência individual, mas que tem na destruição e degradação do corpo uma construção de sentido por si mesma, aliada a uma poesia que remete filosoficamente a um panteísmo materialista. É certo que muitas dessas discussões e monólogos existenciais e também os que se referem ao preconceito após 11 de setembro tem seus momentos de pausa explicativa excessiva e alguma quebra de envolvimento pelo exagero, mas a impressão final é extremamente positiva.

Aliando a construção de um melodrama genuinamente tocante, "Missa da Meia-Noite" tem uma tonalidade de um folk horror às avessas, onde geralmente uma cultura pagã de uma pequena comunidade é apresentada com suas crenças exóticas gerando estranheza, ameaça e muita dubiedade em filmes como "O Homem de Palha", "Midsommar" e "O Apóstolo", mas aqui em "Missa da Meia-Noite" a estranheza, a violência e a destruição graduais aparecem naqueles valores que não nos são tão estranhos, sugerindo que a linha que nos separa da insanidade e do nosso lado desumano é muito mais tênue do que pensamos.

Direção: Mike Flanagan

Roteirista: F. Paul Wilson

Fotografia: Michael Fimognaria

Música: Taylor Stewart, Andrew Grush

Elenco: Zach Gilford, Hamish Linklater, Kate Siegel, Annabeth Gish, Michael Trucco, Samantha Sloyan, Henry Thomas, Rahul Abburi, Crystal Balint, Matt Biedel, Alex Essoe, Rahul Kohli, Kristin Lehman, Robert Longstreet, Igby Rigney, Annarah Cymone


0 Amantes do cultcomentario até agora.

Postar um comentário