• RSS
  • Delicious
  • Digg
  • Facebook
  • Twitter
terça-feira, 28 de maio de 2024 às 06:37 Postado por CultComentário 0 Comments


"Mad Max" é uma franquia que reflete os anseios, percepções e visão de mundo de seu criador, George Miller. Dono de uma criatividade ímpar, de uma artesania invejável como realizador e de uma versatilidade poucas vezes vista entre diretores de cinema, Miller consegue sempre trazer, de tempos em tempos, essa franquia de volta à vida e, junto dela, projetar os sonhos e pesadelos mais profundos da humanidade (dentro e fora da ficção) que, cada vez mais, se afunda em guerras, desigualdades e em crises econômicas, sempre se vendo na necessidade de ressignificar ídolos e símbolos religiosos, num eterno retorno aos momentos de caos e intolerância, mas sempre encontrando figuras que combatem essa tendência, ao mesmo tempo que tentam sobreviver a ela. Se, ao longo de quatro filmes, essa figura foi simbolicamente encarnada por Max e seus coadjuvantes, aqui em "Furiosa: Uma Saga Mad Max", a personagem título toma esse papel para si.

A versatilidade, que domina a carreira de cineasta de George Miller, também pode ser sentida ao longo da franquia "Mad Max". Com cada filme apontando para uma abordagem diferente, pode-se destacar uma constante na estrutura dos três primeiros longas, que consiste em guardar a melhor sequência de ação, que ocorre ao longo de uma estrada com veículos em alta velocidade, sempre para o final. Essa característica foi expandida em "Mad Max: Estrada da Fúria", que faz praticamente do filme inteiro, uma longa sequência de ação com alguns momentos, necessários, de respiro. Essa crescente na aceleração da narrativa reponde ao ponto de vista de seu protagonista.

Acompanhamos a jornada de Max ao longo de quatro filmes, do início de seu desencanto com o mundo até o momento que dele só sobra o instinto básico de sobrevivência. O personagem torna-se reativo, impulsivo e veloz. E essa aceleração toda é evidenciada pela narrativa de "Estrada da Fúria", desde a montagem frenética até a quantidade de quadros por segundo (frame rate) reduzida, que toma conta e chama a atenção na introdução de "Estrada da Fúria".

Em "Furiosa" a lógica é diferente. Ao trocar de protagonista, Miller ajusta a narrativa a esta. Sendo uma garota criada num Vale Verde de fartura e bonança, que foi sequestrada de seu lar e obrigada a testemunhar as maiores atrocidades ao longo da vida, a personagem se protege num casulo de silêncio, sempre fantasiando o seu retorno ao Vale de onde saiu. Nesse sentido, o filme se torna, em uma comparação inevitável com Estrada da Fúria, mais estilizado e maneirista (reparem, por exemplo, na cena em que a garota é obrigada a assistir a tortura de uma pessoa que lhe é cara, e o diretor opta por mostrar o ato através de reflexo no olho da protagonista). Esse maneirismo parece remeter a um aspecto lúdico, natural da memória de uma garota que procura manter viva a imagem de seu Vale Verde na imaginação, pintando a realidade a sua volta com cores vivas e uma plasticidade de movimentos que o diretor abraça na narrativa, adotando o sempre os enquadramentos e movimentos de câmera mais adequados em cada cena, excursionando a câmera no espaço quase como se filmasse um épico Homérico, um embate entre os Deuses e a Humanidade, simbolizados pela natureza árida e ameaçadora, de recursos escassos, e as máquinas imponentes que cortam o deserto entre explosões e roncos de motor (inteligentemente incorporados à trilha sonora, que traz também alguns acordes que remetem ao Oriente Médio).

Estruturando-se como uma história de vingança no melhor estilo Western, Miller remete muito ao primeiro filme da franquia quando caracteriza a sua personagem, criando um paralelo com a história de Max, mas com distinção, dado o tempo de tela que os capítulos que encenam a infância da personagem ocupam ao longo da projeção, algo que por si só já soa um ponto fora da curva em filmes desse tipo, mas muito apropriado e bem aproveitado. Nesse ponto, vale ressaltar o quanto que o trabalho de atuação das duas interpretes (Anya Taylor-Joy e Ayla Browne) soa expressivo, no que diz respeito ao olhar, e coerente, pois não perde de vista, em nenhum momento, a maneira como Charlize Theron interpretou Furiosa em Estrada da Fúria. Sendo essencialmente um filme de vingança, é mandatório que o vilão do filme encarne uma ameaça constante. E o ator, Chris Hemsworth, de maneira surpreendente e corajosa, consegue fazer isso, ao mesmo tempo que consegue ser um alívio cômico para uma trama que constrói uma base dramática forte. E condensar alívio cômico e vilania num só personagem é mais um trunfo da mão forte de Miller na direção.

Com uma ação pontual e drama constante, o diretor resolve a vendeta de maneira poética, com a protagonista transformando cada gota de vida de seu algoz em um significante positivo, que remete à sua memória de infância. No seu desfecho, "Furiosa" trabalha pra engrandecer ainda mais "Estrada da Fúria", amarrando todas as pontas e justificando as atitudes da protagonista, transformando cada olhar, cada ação e reação da personagem adulta em uma tentativa de levar aquela criança maculada de volta ao seu Vale Verde.

Direção: George Miller

Roteiro: George Miller, Nico Lathouris

Montagem: Eliot Knapman , Margaret Sixel

Fotografia: Simon Duggan

Trilha Sonora: Tom Holkenborg

Elenco: Anya Taylor-Joy,  Chris Hemsworth,  Tom Burke,  Alyla Browne,  George Shevtsov, Lachy Hulme, John Howard,  Charlee Fraser, Angus Sampson, Nathan Jones, Elsa Pataky, Josh Helman, David Field, Rahel Romahn,  David Collins,  Goran D. Kleut, CJ. Bloomfield, Matuse Paz, Ian Roberts, Guy Spence, Robert Jones, Clarence John Ryan, Tim Burns, Tim Rogers, Florence Mezzara, Quaden Bayles, Peter Stephens, Sean Millis, Lee Perry





0 Amantes do cultcomentario até agora.

Postar um comentário

    Total de visualizações de página