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Depois de sobreviver duas vezes à crueldade de uma arena projetada para destruí-la Katniss Everdeen se junta aos rebeldes do lendário Distrito 13. A coragem de Katniss nos jogos fez nascer a esperança em um país disposto a fazer de tudo para se livrar da opressão.

Os dois primeiros filmes da franquia “Jogos Vorazes” sempre tiveram na base de seu enredo um subtexto de crítica política e social, além de procurar refletir sobre os reality shows, imprensa e programas escapistas, além da própria iconografia da imagem. Pois neste  “Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1”, temos esses temas elevados à um nível superior, criando uma série de momentos marcantes para a franquia e desenvolvendo em maior profundidade todas as questões que os filmes anteriores simplesmente utilizavam de bengala para contar a sua história.

Estabelecendo-se como a única chance de mobilizar a união dos distritos contra a Capital, a protagonista Katniss, numa composição extremamente intensa de Jennifer Lawrence, que sabe conferir o peso certo às palavras, ações e gestos de sua personagem, encontra-se tomada de desespero em relação aos acontecimentos narrados no filme anterior, como também sente o peso da incumbência de ser escolhida para liderar um povo. Uma vez mais o filme evoca o triângulo amoroso construído desde o primeiro longa, não só na tensão provocada pela presença de Gale, mas mesmo na escada colossal do bunker em que os rebeldes se refugiam, vista de cima em formato triangular.

Pois é na construção de uma imagem idealizada de Katniss  que o filme encontra o seu momento mais forte. Tendo que convencer os espectadores ávidos de uma revolução contra a capital, a protagonista se vê obrigada a vender a própria imagem num momento extremamente metalinguístico que o filme encarna. Reparem no momento em que, sendo filmada, Katniss começa a cantar. Sabemos que são imagens que captam um momento da realidade e que na presença de seus espectadores irá remeter às suas sensações e sentimentos. Para evocar as percepções corretas deve-se ter o senso de manipulação da imagem, encarnada pela figura de uma diretora e sua equipe responsável pela propaganda de Katniss. E quando esta começa a cantar a pedido de um membro da equipe, essa canção preenche a filmagem da propaganda produzida para incitar a união dos distritos, mas toma conta também do filme que nós, espectadores, estamos assistindo. Que é, por sua vez, uma forma da idealização da imagem que nos evoca as sensações que uma equipe construiu através do poder de manipulação da imagem. Outro momento é quando vemos Katniss se defendendo de um ataque real, num hospital, sendo filmada em ação. O curioso é perceber que as imagens usadas para a propaganda possuem um frame do ponto de vista de Katniss pouco depois dela atacar uma das aeronaves, que por sua vez é um frame que havia sido exibido anteriormente no próprio filme.  Intencionalmente ou não (realmente isso não importa) o longa evoca uma reflexão sobre a própria manipulação da imagem e a construção de ídolos numa sociedade.

As constantes reflexões de ordem política que o filme pontua através das estratégias de seus personagens e de seus diálogos são bem maduras e constituem outro ponto alto do longa.

A fotografia neste filme possui menos variação na paleta de cores, investindo em cores dessaturadas, entre um cinza de um céu nublado, tons pastéis até às sequências que mostram que a destruição oriunda da repressão já deixara seus efeitos em alguns distritos, tudo narrado visualmente num clima apropriadamente mais sombrio.

A trilha sonora realmente não chama a atenção e é o único ponto fraco do filme, limitando-se a conduzir as sequências, sem ter a pretensão de mastigar as emoções ao espectador, mas pecando por não ter uma faixa realmente marcante, que possamos relacionar com o filme.

Por vezes o longa se permite momentos de contemplação e de desenvolvimento dos personagens, quando descobrimos os seus anseios e personalidades, evitando querer simplesmente reproduzir uma ação desenfreada como fio condutor do filme. Pois, ao longo da franquia, o fio condutor tem sido o desenvolvimento de seus personagens, e a ação, quando aparece na tela, é extremamente bem concebida.

As presenças de Julianne Moore e do falecido Philip Seymour Hoffman (o filme foi dedicado a ele em razão da sua morte), são extremamente eficientes, caracterizando Plutarco como um carismático líder e que possui a habilidade de reconhecer os traços da personalidade de cada indivíduo, e Coin possui a habilidade política e motivacional muito forte em situações chave do filme. Em alguns momentos somos levados a refletir que, se a forma de governo que rege Panem é injusta, o que assegura que um futuro governo oriundo de uma revolução também não o seja?

Mantendo um clima de tensão constante em que nos envolvemos com cada decisão que cada personagem irá tomar, “Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1”, nunca perde o expectador e a medida que chega ao fim, foge dos clichês e das soluções fáceis e faz com que a nossa expectativa para que o filme final seja cada vez maior, muito em razão da situação a das ações de um personagem importante, concluindo com uma montagem paralela que culmina num último frame extremamente angustiante e genial.

Dessa forma, conseguindo abordar com mais profundidade os temas que usava como pano de fundo, “Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1” é um filme extremamente maduro e que faz refletir sobre a nossa condição de indivíduos manipulados dentro de uma sociedade.






Direção: Francis Lawrence 

Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman, Jeffrey Wright, Stanley Tucci, Donald Sutherland, Toby Jones, Willow Shields, Sam Claflin, Jena Malone, Natalie Dormer  


Música: James Newton Howard 


Roteiro: Peter Craig, Danny Strong

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