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sábado, 4 de agosto de 2012 às 00:30 Postado por Gustavo Jacondino 2 Comments

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Sem dúvida que o filme de Nolan deixou forte impressões no público que o assistiu. Não raro surgem relatos de aplausos nos cinemas ao término do longa, críticas bem favoráveis (outras não tanto), mas enfim, apesar de seus defeitos, que existem aos montes, é um filme que apela à catarse para dar certo, provocando a aprovação imediata pela eficiência do elenco em interpretar as nuances do roteiro não menos que grandioso dos Nolan. A escala do filme também impressiona, contribuindo para arrebatar o espectador. Há muito não se via um filme produzir tal efeito, de um filme de ideias bem construídas com sequências magistralmente montadas, ficando na memória não somente como um meio de escapismo e diversão. Todavia, ele não é perfeito. Nada é perfeito nesse mundo.

Em termos de roteiro, surge perguntas, como:

  • A própria consequência do ato final do segundo filme e a informação de que uma lei foi criada inspirada em Dent, que nada mais é do que uma lei que praticamente tira os direitos dos cidadãos considerados bandidos, não é uma forma de severidade política quase totalitária aplicada em Gothan?

  • Bruce Wayne, tanto no segundo capítulo como nesse terceiro, mostra que decide sobre aquilo que pode ou não ser divulgado em termos de tecnologia a fim de proteger Gothan. Parece que ele detém um monopólio tecnológico dentro de Gothan, evidenciando que o roteiro o coloca como o seu único salvador.

  • A própria influência de Bruce Wayne não se restringe ao domínio tecnológico ou de vigilante, mas também suas atitudes de ajuda ou omissão filantrópicas, como somos informados no início do filme, podem ter graves consequências. Gothan depende por demais de Bruce Wayne, e em diferentes aspectos, é o que transmite o roteiro dos Nolan. Por mais inspirado em quadrinhos que seja, o fato dos cidadãos de Gothan não poderem tomar suas próprias decisões em detrimento de um poder concentrado nas mãos de poucos, por mais bem intencionados que sejam, soa politicamente perigosa.

  • A maneira como Blake descobre a identidade do herói é, no mínimo, bem estranha, e a maneira como Batman se revela a Gordon no final se mostra igualmente pouco cerebral, a não ser se supormos que Gordon já desconfiava da identidade de Batman (algo que não parece, devido a surpresa que ele tem ao descobrir).

  • O segundo ato do filme, marcado pela ausência de Batman, é também marcado pela sequência em que Wayne se encontra numa prisão. Ao descobrirmos que uma criança foi capaz de deixar a prisão, simplesmente porque lá nasceu, e Bruce, recuperado e já mais forte fisicamente, não o consegue, necessitando de uma força moral-espiritual de pseudo-filosofia, é um artifício pouco complexo do roteiro, que funciona unicamente pelo empenho empregado por Bale.

  • A maneira como Bruce retorna à Gothan é um mistério que eu gostaria de saber.

  • A ausência da menção do curinga também me incomodou um pouco.

  • A cena de Gordon e alguns dos policiais de Gothan sendo obrigados a andar no gelo, sendo que um indivíduo sozinho conseguiu dar uns poucos passos para o gelo partir, e vemos Gordon e seus companheiros dando vários passos, para surgir depois Batman, aparentemente também pisando no gelo, e este não quebra, isso sim é fantástico.

  • A ideia de toda a polícia de Gothan simplesmente presa no subsolo da cidade, e ainda por cima recebendo mantimentos dos capangas de Bane, devo dizer, goza de igual caráter fantástico.

  • A batpod deve ser bem fácil de dirigir, já que a mulher-gato o faz com maestria fantástica já na primeira vez em que pilota.

  • A facada que Batman leva por determinada personagem, para depois simplesmente agir como se nada aconteceu, é mais um fato fantástico do qual somos privados de qualquer explicação racional.

  • A maneira como Marion Tate se revela ao final do filme e sua morte aproveitam pouco de Marion Cotillard, que de gordurinha a mais no meio dos personagens acaba se revelando nos 45 do segundo tempo.


Enfim, longe de querer ser um estraga prazeres ou mais um que acha defeitos, penso que sempre é bom refletir sobre aquilo que assistimos, e no caso do excelente Batman, temos que ter em mente que sua história apresenta, sim, alguns furos e suas posições políticas são bem ambíguas. O que é melhor, uma verdade confortante mas falsa, ou uma verdade dura, porém genuína? O que é melhor, dar ao povo o poder de escolha, e os meios de informação para tomar decisões sensatas, ou manipular a opinião pública, mesmo que seja na melhor das intenções (sempre o é). Esse último aspecto é uma importante constatação proveniente da análise do roteiro, e seria um ponto positivo, não fosse ela um mecanismo para que pudéssemos admirar o caráter  altruísta do Batman, uma vez que muitos ditadores começaram como Batman.

2 Amantes do cultcomentario até agora.

  1. Se existe um termo que foi banalizado hoje em dia, é o "furo de roteiro". Acho que o Nolan virou refém do contexto realístico dado ao Batman e quando algo não é explicado, vira furo, não há mais espaço para indagações saudáveis e até licenças poéticas por parte dos realizadores, tudo virou simplesmente "furo de roteiro". Em geral gostei de seu texto e dentre os tópicos de dúvidas, duas ou três coisas em minha opinião são relevantes para o desenvolvimento do filme, outras nem tanto...
    Os três primeiros tópicos ´servem justamente para criar um debate sobre as necesidades e implantações de medidas desesperadas que o Estado cria "em nome da paz" e que passam por cima dos direitos do cidadão e me assusta você encaixá-los como dúvidas e não como críticas (que certamente são) há serem discutidas como a "Lei de Dent" que é apenas uma metáfora das leis criadas nos EUA para o combate ao terrorismo, ou você já se esqueceu do Ato Patriótico pós 11/09?
    No podcast do cinema em cena (que eu sei que você ouviu!) a Larissa Padron comenta com uma preguiça de ideias que não haveria possibilidade de o Gordon descobrir que era o Bruce, pois segundo ela, o Gordon colocou casacos em várias crianças, mas a cena evidência justamente o contrário, que o casaco aliado à frase é que remetem ao que aconteceu e eu não vejo problema nisso.
    Outro "furo" é o modo como o Batman retorna à Gothan, se no Begins ele sai de Gothan sem nenhum tostão prq nesse filme isso se torna inaceitável? E mais, mostra que é perfeitamente possível entrar na cidade, visto que a polícia conseguiu, então eu me pergunto qual é a dúvida afinal?
    Concordo com os dois últimos tópicos que provavelmente se perderam na sala de edição, mas que não tira o brilho de um grande filme que tenta trazer um debate, mas que encontra um público que não quer debater ou levantar discussões o que é uma pena, pois o "furo de roteiro" de hoje nada mais é do que uma mente que não aceita licenças poéticas e indagações saudáveis, até quando se trata de um filme com um personagem fantástico como o Batman.

  2. Luiz, agradeço muito o comentário. Para tentar esclarecer um pouco, sei que posso ter neglicenciado os primeiros tópicos, que de teor político como simplesmente "furos de roteiro". São sim constatações e reflexões críticas sobre o mundo real, e o que me incomoda particularmente é que são usadas unicamente para enaltecer a pessoa do herói, dando-lhe plenos poderes sobre Gothan em muitos sentidos e é uma coisa que dá errado tanto no mundo real como também no filme. Deixa a impressão que Gothan nunca vai conseguir tomar suas próprias decisões se não tiver um paladino mascarado ou um milionário para decidir o que é melhor. E esse tom elemento do roteiro, sim, poderia ser menos um mecanismo para impulsionar a história e mais uma crítica aplicável em qualquer sociedade moderna. Mas pelo menos faz pensar. Posso até estar sendo polêmico demais, ou deixando de ver alguns pontos importantes, mas é a impressão imediata que fiquei e só o tempo pode tirá-la de mim (ou não). Eu acho que Nolan, com seu estilo cerebral e mania de explicar tudo nos filmes, nos deixou mal acostumados em relação às licenças poéticas, que quando elas surgem por vezes sentimos falta daquela explicação usada habitualmente em outros longas do diretor, mas dos males esse é o menor. Enfim, gostei muito do filme e ainda mais da sua participação. Abraços.

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